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sábado, 13 de abril de 2013

Resquício carnavalesco


O relógio havia acabado de marcar 20:00. O alarme soou alto no quarto que estava completamente escuro e silencioso até então. Apenas com uma iluminação falha vinda das estrelas coladas no teto da menina. O barulho era empurrado pelas parades, ficando cada vez mais alto.
A primeira coisa que você deverá saber sobre ela é que ela dormia pesadamente e a festa começaria as 21:30. Seu maior objetivo era chegar na hora e não com três horas de atraso. Se esse era seu maior objetivo, você consegue imaginar na bagunça que a vida dela se encontrava? Ela nem queria sair de verdade, sua vontade era de entrar no mundo imaginário dos cobertores e se envolver apenas com eles, e não com qualquer outro, ou até com outra.
Olivia se levantou jogando as cobertas e seus dois travesseiros no chão, assim ela tentava expulsar a preguiça e as desculpas que ainda não haviam sido usadas para dizer o porque de que não iria pela quarta vez a uma festa. Foi para o banho, e se contentou com o vapor quente e a água como uma consolação. Queria que sua vida estivesse aconchegante desse jeito. Desligou o chuveiro, e deparou-se com o armário para escolher a roupa mais oposta possível da primeira combinação que havia imaginado, rímel, dúvida de cor de sombra, “não, sem sombra”, lápis, batom qualquer. O cabelo estava bom, já era presente naturalmente por causa da cor laranja e dos cachos agressivos. Boa, foi.
Ela não queria vê-lo ou vê-la, ou pior: Não queria vê-los juntos. Não queria inventar conversas e responder que está tudo bem, não queria "pegar alguém" e depois talvez ter que trabalhar numa relação na ligação dos dias seguintes. Mas, queria alguém. Queria ser misteriosa, mas queria se abrir rapidamente. Queria sua cama, mas queria dançar. Queria ficar em casa, mas o táxi já havia chegado ao bar.
Pra variar, ela não percebe todos os olhares que recebe ou a movimentação que causa na multidão enquanto vai passando. Olivia apenas está se sentindo má e perversa. Não quer se relacionar, mas quer entrar de cabeça em uma relação e depois sair correndo sem nem olhar para trás, apenas deixando a pessoa ali, do mesmo jeito que fizeram com ela. Gosta de quebrar corações e virar o mundo de alguém para baixo. Não tem nada a perder mesmo. Ela só é assim porque fizeram isso com ela.
De repente, Olivia para e vê as duas pessoas que a deixaram assim juntas, aos beijos, dançando e aproveitando tudo como sempre fazem. O tempo parou nesse momento. Lagrimas caíram como confete e ela corria mais rápido que as serpentinas jogadas para o alto e seu coração palpitava mais rápido do que a marchinha tocada aos fundos.
Bang. 
O alarme soou no quarto, pelos seus cálculos pela quinta vez. Sentou-se num pulo derrubando tudo que estava em cima da cama. Aquele sonho de novo. Aquele maldito sonho que na verdade era a realidade. Aquele Carnaval velho, com aquele cheiro de bebida e cigarro, com aquelas pessoas e a aquelas lembranças recordadas a cada segundo a faziam mal. Todas aquelas memórias a perseguiam justamente quando ela estava para se libertar. Por isso ela quebrava os corações alheios, foi a maneira de encontrar para reconfortar o seu. A maneira mais injusta de todas. Mas, quem liga? Olivia não. Ela sabe que a culpa não foi dela. E sim deles, sim, aqueles que se beijavam. Aqueles que a deixaram para ficar juntos. Ela os amava. Amava. Agora? Ela se ama de uma maneira ou de outra. E nenhuma das maneiras é boa.